{"id":73,"date":"2020-10-30T19:04:20","date_gmt":"2020-10-30T19:04:20","guid":{"rendered":"https:\/\/seguridadinternacional.es\/resi\/html\/?page_id=73"},"modified":"2020-10-30T19:04:21","modified_gmt":"2020-10-30T19:04:21","slug":"o-que-e-a-estrategia-uma-apresentacao-critica-a-partir-da-escola-estrategica-portuguesa","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/seguridadinternacional.es\/resi\/html\/o-que-e-a-estrategia-uma-apresentacao-critica-a-partir-da-escola-estrategica-portuguesa\/","title":{"rendered":"O que \u00e9 a estrat\u00e9gia? Uma apresenta\u00e7\u00e3o cr\u00edtica a partir da escola estrat\u00e9gica portuguesa"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-center\">ANT\u00d3NIO HORTA FERNANDES<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\">Faculdade de Ci\u00eancias Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa\/Investigador do Instituto Portugu\u00eas de Rela\u00e7\u00f5es Internacionais (IPRI), Portugal<\/p>\n\n\n\n<p>T\u00edtulo: \u00bfQu\u00e9 es la estrategia? Una presentaci\u00f3n cr\u00edtica a partir de la escuela estrat\u00e9gica portuguesa<\/p>\n\n\n\n<p>Title: What is Strategy? A Critical Presentation from Portuguese Strategic School<\/p>\n\n\n\n<p>Resumo: Os estudos estrat\u00e9gicos, ou simplesmente a estrat\u00e9gia, na denomina\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica continental, t\u00eam sido alvo de um renovado interesse, mormente nos meios acad\u00e9micos. Assiste-se na pen\u00ednsula ib\u00e9rica ao emergir de uma escola espanhola, a par da consolida\u00e7\u00e3o da escola estrat\u00e9gica portuguesa, a decad\u00eancia da preponder\u00e2ncia exercida pela escola francesa, tendo como contrapartida o refor\u00e7o das escolas anglo-americanas. O presente artigo procura apresentar uma renovada perspectiva da estrat\u00e9gia, em torno da teoria geral da estrat\u00e9gia, formulada a partir da escola estrat\u00e9gica portuguesa, da qual, no mesmo passo, faz uma sucinta apresenta\u00e7\u00e3o. Nesse sentido, em primeiro lugar tra\u00e7a-se uma panor\u00e2mica das linhas-mestras que pautam a escola estrat\u00e9gica portuguesa, em particular aquelas estabelecidas pelo seu refundador, o general Abel Cabral Couto. Com base nessa leitura, que serve de chave cr\u00edtica, abordam-se algumas defini\u00e7\u00f5es de estrat\u00e9gia relevantes, oriundas do meio anglo-sax\u00f3nico, que manifestam um franco reducionismo, porque assentes na predomin\u00e2ncia do vector militar, sem raz\u00e3o hist\u00f3rica, \u00f4ntica e epistemol\u00f3gica que o justifique. A cr\u00edtica desse quadro conceptual, vai permitindo apresentar, por contraponto, o quadro conceptual continental que reproduz o melhor que se tem feito no \u00e2mbito dos estudos estrat\u00e9gicos em respostas \u00e0s altera\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas p\u00f3s-Segunda Guerra Mundial, as quais obrigaram a desenvolver modalidades de confronta\u00e7\u00e3o b\u00e9lica e de gest\u00e3o estrat\u00e9gica da viol\u00eancia distintas da militar, mas detendo a mesma legitimidade, em p\u00e9 de igualdade com o vector militar. Por fim, apresentamos uma proposta sint\u00e9tica do que \u00e9 a estrat\u00e9gia e qual o seu enquadramento, ainda a partir das reflex\u00f5es acontecidas na escola estrat\u00e9gica portuguesa. No caso das reflex\u00f5es acontecidas na escola estrat\u00e9gica portuguesa, s\u00e3o de relevar os avan\u00e7os produzidos por Francisco Abreu na tentativa de transposi\u00e7\u00e3o para a rivalidade inter-empresarial da matriz da estrat\u00e9gia; a vis\u00e3o inovadora de Ant\u00f3nio Paulo Duarte acerca do significado de guerra absoluta, implicando uma nova exegese de Clausewitz, que ter\u00e1 sido uma <em>premi\u00e8re mondiale<\/em>, al\u00e9m de uma revaloriza\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio conceito de guerra enquanto g\u00e9nese positiva de novos estados de vida; e ainda a defesa da estrat\u00e9gia como \u00e9tica do conflito, prud\u00eancia para al\u00e9m de toda a prud\u00eancia com o objectivo final de encurralar a guerra, por parte de Ant\u00f3nio Horta Fernandes. Todos estes avan\u00e7os, entre outros, t\u00eam colocado a escola estrat\u00e9gica portuguesa na vanguarda dos estudos estrat\u00e9gicos, pelo menos no que concerne aos fundamentos te\u00f3ricos do campo disciplinar.<\/p>\n\n\n\n<p>Palavras chave: Estrat\u00e9gia, Guerra, Estrat\u00e9gia militar, Escola estrat\u00e9gica portuguesa, \u00c9tica.<\/p>\n\n\n\n<p>Abstract: The strategic studies, or plainly strategy, as in the classic continental denomination, are being the target of a renowned interest, namely within the academic world. In the Iberian Peninsula, the rise of a Spanish school takes place, side by side with the consolidation of the Portuguese school, the decline of the&nbsp;prominence of the French school, and, as a&nbsp;counterpart, the reinforcement of the anglo- American schools. The present article intends to present a renowned perspective of strategy, around the&nbsp;general theory of strategy, elaborated from the strategic Portuguese school, of which, at the same time, a brief presentation is done. Accordingly, in the first place, an over view of the main lines that rule the strategic Portuguese school is drawn, particularly those established by its re- founder, general Abel Cabral Couto. From there, using it as key review, we approach some of the relevant strategy definitions, issued from the anglo-saxon midst, that display an overt restriction, since they are based on the prominence of the military vector, without historical, ontological, or epistemological reason to justify it. The review of that conceptual frame, will allow to present, by counterpoint, the continental conceptual frame that reproduces what best has been made in the ambit&nbsp;of strategic studies as an answer to the historical changes post-Second World War, that forced the development of warfare and management confrontation modalities other than the militaries but keeping the same legitimacy equal to the military vector. Lastly, we present a synthesis proposition of what is strategy and its frame, still set from the reflections within the Portuguese strategic school. In the case of the reflections that took place in the Portuguese strategic school, are relevant the advances made by Francisco Abreu in the attempt to transpose the strategic matrix into the rivalry between companies; the innovative vision of Ant\u00f3nio Paulo Duarte about the meaning of absolute war, implying a new exegesis of Clausewitz, which would have been a premi\u00e8re mondiale, besides a revaluation of the very concept of war as a positive genesis of new states of life; and also the defense of the strategy as an ethic of the conflict, prudence beyond all prudence with the final objective of cornering the war, by Ant\u00f3nio Horta Fernandes. All these advances, among others, have placed the Portuguese strategic school at the forefront of strategic studies, at least as far as the theoretical foundations of the disciplinary field are concerned.<\/p>\n\n\n\n<p>Keywords: Strategy, War, Military strategy, Portuguese strategic school, Ethics.<\/p>\n\n\n\n<p>Recibido: 20 de junio de 2018. Aceptado: 10 de junio de 2019.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Para citar este art\u00edculo\/To cite this article:&nbsp;<\/strong>Ant\u00f3nio Horta Fernandes, \u00abO que \u00e9 a estrat\u00e9gia? Uma&nbsp;apresenta\u00e7\u00e3o cr\u00edtica a partir da escola estrat\u00e9gica portuguesa\u201d,&nbsp;<em>Revista de Estudios en Seguridad Internacional,<\/em>&nbsp;Vol. 5, No. 2, (2019), pp. 21-38. DOI: <a href=\"http:\/\/dx.doi.org\/10.18847\/1.10.2\">http:\/\/dx.doi.org\/10.18847\/1.10.2<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Proleg\u00f3menos<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Na actualidade h\u00e1 um incremento no interesse dos estudos estrat\u00e9gicos, a despeito de alguns meios na ci\u00eancia das Rela\u00e7\u00f5es Internacionais, nomeadamente no \u00e2mbito dos estudos cr\u00edticos de seguran\u00e7a, considerarem os estudos estrat\u00e9gicos at\u00e1vicos, sen\u00e3o mesmo reacion\u00e1rios, identificados com as perspectivas realistas mais duras, centrados em excesso ainda nas quest\u00f5es militares, esquecendo as dimens\u00f5es n\u00e3o militares da hostilidade, ou que causam hostilidade (a dirimir militarmente), as quais apenas o conceito de seguran\u00e7a reflectiria com rigor; como se a estrat\u00e9gia se restringisse ao conflito militar e a seguran\u00e7a fosse um conceito optimizado para se substituir \u00e0 estrat\u00e9gia (Krause &amp; Williams, 1997: 33). Na realidade, h\u00e1 uma tend\u00eancia na literatura de l\u00edngua inglesa, de que n\u00e3o iremos discutir as raz\u00f5es e a etiologia no presente artigo, para remeter para o conceito de seguran\u00e7a tudo aquilo que n\u00e3o cabe no conceito de estrat\u00e9gia, tomado de forma restritiva. Nas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX j\u00e1 tinha acontecido o mesmo com o conceito de defesa. Por\u00e9m, a reitera\u00e7\u00e3o do fen\u00f3meno \u00e9 hoje muito menos aceit\u00e1vel; e menos ainda ser\u00e1 aceit\u00e1vel se levarmos em considera\u00e7\u00e3o os perigos que o conceito de seguran\u00e7a acarreta, pelo menos na opini\u00e3o de alguns autores (Fernandes, 2014). Em bom rigor, nessa tend\u00eancia da literatura em ingl\u00eas existe um pressuposto assumido acriticamente que n\u00e3o \u00e9 mais do que um preconceito contra o realismo, o qual, mesmo podendo ser leg\u00edtimo n\u00e3o tem de se estender \u00e0 ci\u00eancia estrat\u00e9gica. Por outro lado, estamos igualmente diante da \u00f3bvia necessidade dos criadores do campo aut\u00f3nomo de estudos de seguran\u00e7a fazerem valer a sua autonomia.<\/p>\n\n\n\n<p>Na verdade, um tal preconceito n\u00e3o parece nascer do nada. Para as correntes realistas nas Rela\u00e7\u00f5es Internacionais, aquelas esmagadoramente maiorit\u00e1rias at\u00e9 h\u00e1 alguns anos, a estrat\u00e9gia n\u00e3o era mais do que uma parte (fundamental \u00e9 certo) da materializa\u00e7\u00e3o do poder, em particular, do poder militar. A disciplina estrat\u00e9gica ou era uma tem\u00e1tica estritamente pr\u00e1tica, ou a teoria dessa pr\u00e1tica n\u00e3o era mais do que uma fatia da teoriza\u00e7\u00e3o sobre as rela\u00e7\u00f5es de poder. J\u00e1 as escolas p\u00f3s-positivistas, em confronta\u00e7\u00e3o com os realismos, herdaram, no entanto, destes e no essencial a sua vis\u00e3o da estrat\u00e9gia. Julgaram-na ora como um instrumento pol\u00edtico de natureza pr\u00e1tica arcaizante, ou mesmo reacion\u00e1rio, como dissemos, ou ent\u00e3o viram simplesmente na estrat\u00e9gia uma fatia, especialmente militarizada e virulenta, da teoria do poder que se repudiava; em todo o caso, uma mat\u00e9ria ser\u00f4dia e a descartar. Esquecendo que o evolver da estrat\u00e9gia tem uma longa hist\u00f3ria, com um percurso disciplinar e epistemol\u00f3gico pr\u00f3prio, havendo estrategistas, isto \u00e9, te\u00f3ricos da estrat\u00e9gia, afins aos realismos e outros que lhe s\u00e3o ou foram avessos.<a href=\"#_ftn1\">[1]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 certo que uma vez mais esta leitura enviesada da estrat\u00e9gia n\u00e3o brota do nada, n\u00e3o nasce do vazio, pelo contr\u00e1rio, parece coerente com as interpreta\u00e7\u00f5es feitas nos meios anglo-sax\u00f3nicos pelos estrategistas dessa origem \u2013 n\u00e3o nos podemos esquecer que as Rela\u00e7\u00f5es Internacionais t\u00eam sido preferentemente uma ci\u00eancia moldada nos meios anglo-sax\u00f3nicos, de acordo com os crit\u00e9rios metodol\u00f3gicos e conceptuais que v\u00e3o tendo vig\u00eancia neles -, os quais tendem, como veremos, a centrar a estrat\u00e9gia em torno do <em>hard power<\/em>, muito concretamente, \u00e0 volta do vector militar.<\/p>\n\n\n\n<p>Por\u00e9m, antes de nos debru\u00e7armos sobre as insufici\u00eancias da teoria da estrat\u00e9gia nos meios estrat\u00e9gicos anglo-americanos, permita-se-nos apresentar as linhas-mestras daquilo que vem sendo designado por escola estrat\u00e9gica portuguesa, at\u00e9 porque a interpreta\u00e7\u00e3o da estrat\u00e9gia veiculada no presente artigo, bem como o debate cr\u00edtico subjacente dependem e est\u00e3o em fun\u00e7\u00e3o das coordenadas do saber estrat\u00e9gico desenvolvido no seio da escola portuguesa.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A escola estrat\u00e9gica portuguesa<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Conv\u00e9m antes de mais relembrar que o fil\u00e3o de uma eventual cultura estrat\u00e9gica (falamos em <em>eventual<\/em> porque n\u00e3o pretendemos agora discutir a validade do sintagma conceptual c<em>ultura estrat\u00e9gica<\/em>)<a href=\"#_ftn2\">[2]<\/a> anglo-sax\u00f3nica n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico nem foi sempre o predominante, e n\u00e3o deteve nem det\u00e9m de todo o monop\u00f3lio do saber estrat\u00e9gico. Durante um tempo bastante apreci\u00e1vel no p\u00f3s-Segunda Guerra Mundial, a escola francesa foi determinante. Nela pontuaram nomes como Andr\u00e9 Beaufre, Lucien Poirier, Jean-Paul Charnay, ou Herv\u00e9 Coutau-B\u00e9garie, legado ainda hoje plasmado na revista <em>Strat\u00e9gique<\/em>. A escola francesa foi uma escola de vanguarda, m\u00e3e da hodierna estrat\u00e9gia, muito por for\u00e7a de ter feito descolar a teoria estrat\u00e9gica da estrat\u00e9gia militar, sem a perder no campo de vago e n\u00e3o ag\u00f3nico das manifesta\u00e7\u00f5es pseudo-estrat\u00e9gicas. Contudo, tamb\u00e9m hoje a escola francesa parece titubear na rela\u00e7\u00e3o com o seu espantoso patrim\u00f3nio herdado, e tende aqui e ali ao reducionismo por via anglo-sax\u00f3nica, como se pode constatar numa publica\u00e7\u00e3o colectiva que de alguma forma pretende fazer o ponto de situa\u00e7\u00e3o dos estudos estrat\u00e9gicos em Fran\u00e7a, na sua rela\u00e7\u00e3o com os estudos da guerra. Referimo-nos ao livro colectivo <em>Guerre et Strat\u00e9gie. Approches, concepts <\/em>(Henrotin, Taillat et Schmitt, 2015). \u00c9 que h\u00e1 uma tend\u00eancia para p\u00f4r a \u00eanfase no vector militar, nos termos do quadro definit\u00f3rio, n\u00e3o justificada epistemologicamente.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 de salientar igualmente que em Espanha parece estar a criar-se uma verdadeira escola estrat\u00e9gica, em torno ao GESI (<em>Grupo de Estudios en Seguridad Internacional<\/em>), sediado na Universidade de Granada, estabelecendo igualmente frut\u00edferos contactos com um conjunto de investigadores, muitos deles ligados ao GERD (<em>Grupo d\u2019Estudis sobre Rep\u00fablica i Democr\u00e0cia<\/em>), da Universidade Aut\u00f3noma de Barcelona, os quais pretendem criar um nicho pr\u00f3prio no \u00e2mbito dos estudos da guerra. De resto, estas sinergias transversais talvez permitam superar um especialismo excessivo que, por quest\u00f5es concorrenciais internas, tende a pautar demasiado o mundo acad\u00e9mico anglo-americano. \u00c9 a vantagem de quem chega depois e argutamente procura evitar erros alheios.<\/p>\n\n\n\n<p>Pois bem, a escola estrat\u00e9gica portuguesa \u00e9 herdeira da escola francesa, da sua amplitude de miras, e o seu nascimento ocorre no momento em que o pensamento estrat\u00e9gico franc\u00eas, por interm\u00e9dio de Beaufre, ganha velocidade de cruzeiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Podemos come\u00e7ar a falar numa escola estrat\u00e9gica portuguesa nos idos de 60 do s\u00e9culo XX, em torno \u00e0 figura do brigadeiro Ka\u00falza de Arriaga, fundador da Escola, sediada ent\u00e3o no Instituto de Altos Estudos Militares (hoje, Instituto Universit\u00e1rio Militar), onde pontuavam tamb\u00e9m figuras como Lopes Alves, para j\u00e1 n\u00e3o mencionar o criador do Instituto da Defesa Nacional, inicialmente Instituto de Altos Estudos da Defesa Nacional, general C\u00e2mara Pina. N\u00e3o se pense, por\u00e9m, que esta incid\u00eancia militar correspondia a uma vis\u00e3o estritamente militar da estrat\u00e9gia. Acontece que havia pouco que a estrat\u00e9gia se libertara dos estreitos limites do militar, sendo natural que fossem os militares a cultivarem-na, ora de uma forma cl\u00e1ssica, ora de uma outra forma, que \u00e0 altura e s\u00f3 ent\u00e3o come\u00e7ava a ser de aceita\u00e7\u00e3o mais consensual: referimo-nos \u00e0 ideia, e tamb\u00e9m \u00e0 pr\u00e1tica, a que n\u00e3o s\u00e3o alheias as imposi\u00e7\u00f5es concretas da guerra fria e das guerras coloniais, de que a estrat\u00e9gia tinha outras val\u00eancias para al\u00e9m da militar, podendo todas elas serem integradas debaixo de conceito de estrat\u00e9gia total ou integral, correspondente \u00e0 manobra geral do Estado, ou de qualquer outro actor pol\u00edtico. Ali\u00e1s, para se aquilatar de quanto neste per\u00edodo, ao n\u00edvel dos fundamentos, a escola estrat\u00e9gica portuguesa n\u00e3o foi meramente epigonal e passiva na recep\u00e7\u00e3o das inova\u00e7\u00f5es, que provinham quase todas de Fran\u00e7a, com excep\u00e7\u00e3o da figura de Liddell Hart, atente-se no conceito de estrat\u00e9gia estrutural, que em Fran\u00e7a, pensando em Lucien Poirier, por exemplo, tem uma tradu\u00e7\u00e3o menos elegante e menos conseguida semanticamente, sendo designado por estrat\u00e9gia de vias e meios (Poirier, 1987: 121 e ss.). O conceito de estrat\u00e9gia estrutural \u00e9 uma cria\u00e7\u00e3o de Ka\u00falza de Arriaga \u2013 em qualquer caso, \u00e9r preciso acrescentar, a modalidade francesa de estrat\u00e9gia de vias e meios inclui o gen\u00e9tico, o operacional e aquilo que podemos designar de estrutural <em>tout court<\/em>, pelo que n\u00e3o tem uma identifica\u00e7\u00e3o t\u00e3o precisa quanto na escola portuguesa. Al\u00e9m do mais, a estrat\u00e9gia de vias e meios \u00e9 classificada como um modo da estrat\u00e9gia, tal como as estrat\u00e9gias ofensiva e defensiva e n\u00e3o como uma charneira entre a estrat\u00e9gia integral e as estrat\u00e9gias gerais, a posi\u00e7\u00e3o da escola portuguesa, na esteira de Beaufre.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas n\u00e3o se deve pensar que esta reflex\u00e3o estrat\u00e9gica adulta foi criada a partir de uma importa\u00e7\u00e3o de Fran\u00e7a puramente te\u00f3rica. A sua genealogia mais pr\u00f3xima entronca nas teoriza\u00e7\u00f5es acerca da guerra subversiva, com as suas concomitantes estrat\u00e9gias de subvers\u00e3o e contra-subvers\u00e3o, desenvolvidas tamb\u00e9m nos in\u00edcios da d\u00e9cada de sessenta. Esse extraordin\u00e1rio fil\u00e3o reflexivo, vertido na publica\u00e7\u00e3o, em cinco volumes, <em>O Ex\u00e9rcito na Guerra Subversiva<\/em>, n\u00e3o ser\u00e1 jamais desaproveitado e ter\u00e1 const\u00e2ncia e desenvolvimento na concep\u00e7\u00e3o da estrat\u00e9gia total ou integral. Mas j\u00e1 antes, ao longo do s\u00e9culo XX, o pensamento estrat\u00e9gico portugu\u00eas foi estando ao n\u00edvel do que melhor se fazia ent\u00e3o no mundo. \u00c9 certo que, a\u00ed sim, a maioria das vezes de forma mais receptiva que inovadora. Contudo, se pensarmos nas figuras de Botelho de Sousa e, sobretudo, em Pereira da Concei\u00e7\u00e3o, que nos anos 50 antecipa ou vai a par de Beaufre e de Liddell Hart, com a sua concep\u00e7\u00e3o de estrat\u00e9gia, a qual bem poderia ser no essencial a nossa, poderemos perceber qu\u00e3o enraizada em boas pr\u00e1ticas e s\u00f3lida fundamenta\u00e7\u00e3o esteve desde in\u00edcio a escola estrat\u00e9gica portuguesa.<a href=\"#_ftn3\">[3]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>O desenvolvimento da disciplina estrat\u00e9gica, a sua abertura ao mundo civil, mormente \u00e0 Universidade, bem como as mudan\u00e7as pol\u00edticas que ocorrem em Portugal na d\u00e9cada de 70, acabam por dar um novo f\u00f4lego \u00e0 Escola, permitindo-lhe alcan\u00e7ar par\u00e2metros antes insuspeitados. Podemos mesmo dizer que a Escola sofre uma refunda\u00e7\u00e3o decisiva em torno \u00e0 figura do general Abel Cabral Couto, ponte entre as gera\u00e7\u00f5es anteriores (trabalhou sob as ordens de Ka\u00falza de Arriaga) e pivot de um n\u00facleo de investigadores, todos seus disc\u00edpulos. Certamente que Abel Cabral Couto nunca esteve sozinho. Lembremos a figura de Loureiro dos Santos, ou em \u00e1reas adjacentes, mas muito pr\u00f3ximas, como \u00e9 o caso da geopol\u00edtica, Pezarat Correia e Ferraz Sachetti. Lembremos igualmente a incontorn\u00e1vel figura de Adriano Moreira, no cruzamento entre a Ci\u00eancia Pol\u00edtica e a Estrat\u00e9gia. Mas n\u00e3o olvidemos, al\u00e9m dos j\u00e1 citados, o trabalho historiogr\u00e1fico e polemol\u00f3gico de Ant\u00f3nio Telo, ou mais directamente estrat\u00e9gica, a reflex\u00e3o do fil\u00f3sofo Viriato Soromenho-Marques. Nesta segunda fase, a Escola ampara-se novamente no Instituto de Altos Estudos Militares, mas agora tamb\u00e9m no meio universit\u00e1rio, de que se salienta o Instituto Superior de Ci\u00eancias Sociais e Pol\u00edticas, com a cria\u00e7\u00e3o do Mestrado em Estrat\u00e9gia. Por\u00e9m, o que n\u00e3o deixa nunca de ressaltar \u00e9 a figura de Abel Cabral Couto, uma vez que \u00e9 a ele que a Escola deve a sua especificidade, o seu cunho original, a come\u00e7ar pelo seu pr\u00f3prio trabalho, ainda hoje um <em>work in progress<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Na realidade, pode dizer-se que Abel Cabral Couto \u00e9 o refundador da Escola, de acordo com de um pensamento estruturado em tr\u00eas eixos, a saber: a dimens\u00e3o do fazer, respeitante \u00e0 ac\u00e7\u00e3o propriamente dita, ao m\u00fanus do estratega; a dimens\u00e3o do saber fazer, do apoio \u00e0 decis\u00e3o, do aconselhamento do pr\u00edncipe, onde se cruzam a figura do estratega e a do estrategista, isto \u00e9, a intera\u00e7\u00e3o de um saber mais experiencial com essa outra de um saber mais te\u00f3rico; finalmente, e n\u00e3o menos importante, o campo por excel\u00eancia do estrategista, o da fundamenta\u00e7\u00e3o te\u00f3rica da estrat\u00e9gia, quer \u00f4ntica quer epistemol\u00f3gica.<\/p>\n\n\n\n<p>Qualquer destas dimens\u00f5es da estrat\u00e9gia \u00e9 essencial, pois embora a estrat\u00e9gia seja em rigor uma disciplina de ac\u00e7\u00e3o, sendo decisivo o seu ponto de aplica\u00e7\u00e3o, s\u00f3 o \u00e9 enquanto disciplina praxista, pr\u00e1xis social, racionalidade social face ao conflito hostil, o que simultaneamente quer dizer ac\u00e7\u00e3o e sentido da mesma. Trata-se daquilo que j\u00e1 foi denominado de <em>racionalidade social estrat\u00e9gica<\/em>: uma socialidade que gera fins pr\u00f3prios de car\u00e1cter prudencial em face do conflito (no sentido forte de hostilidade e animoadversidade), em especial face \u00e0 guerra, por causa da excepcionalidade b\u00e9lica, que obriga essa socialidade a responder aos efeitos inusitados da viol\u00eancia b\u00e9lica, aplacando-os.<a href=\"#_ftn4\">[4]<\/a> Dito por outras palavras, a estrat\u00e9gia \u00e9 tanto um saber fazer fazendo, como um fazer sabendo o que se faz. Caso contr\u00e1rio, poder\u00edamos estar diante de uma ac\u00e7\u00e3o sem qualquer estrat\u00e9gia a montante. De qualquer forma, note-se que as pr\u00f3prias premissas te\u00f3ricas s\u00e3o desde logo um encaminhar a ac\u00e7\u00e3o de uma determinada maneira, quanto mais n\u00e3o seja porque&nbsp; estrategista e&nbsp; estratega se encontram no \u00e2mbito do apoio \u00e0 decis\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 por esta raz\u00e3o que nem Abel Cabral Couto, nem a escola portuguesa no seu todo, aceitam as solu\u00e7\u00f5es francesas tanto de Jean-Paul Charnay, como de Lucien Poirier, apontando para uma faceta meta-disciplinar, de alguma forma exterior \u00e0 estrat\u00e9gia, que ambos designam de forma diferente; Charnay emprega o termo <em>metastrat\u00e9gie <\/em>(Charnay, 1990a: 188-189; e ainda, Charnay, 1990b: 213 e ss.), enquanto Poirier faz seu o neologismo <em>strat\u00e9gique<\/em>, que tanta fortuna viria a ter em Fran\u00e7a (Poirier, 1987: 195, 199-201). Evidentemente que a estrat\u00e9gia integral, a parte mais importante da ac\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica, respeitante \u00e0 grande manobra conjunto do actor pol\u00edtico, n\u00e3o \u00e9 a estrat\u00e9gia por antonom\u00e1sia, apesar de a estrat\u00e9gia ser uma disciplina eminentemente praxista. A reflex\u00e3o sobre a natureza da estrat\u00e9gia e sobre o seu intr\u00ednseco evolver, o seu enquadramento epistemol\u00f3gico particular (o seu modo de produ\u00e7\u00e3o), o sentido do agir estrat\u00e9gico com rela\u00e7\u00e3o aos fins pol\u00edticos e aos fins supra-pol\u00edticos s\u00e3o igualmente concre\u00e7\u00f5es da estrat\u00e9gia. Dir-se-ia que s\u00e3o as concre\u00e7\u00f5es fundamentais da estrat\u00e9gia, sem as quais a estrat\u00e9gia integral n\u00e3o teria norte, pois n\u00e3o estaria ancorada na realidade integral, inteira. \u00c9 por este \u00faltimo motivo, que nunca se procurou traduzir para portugu\u00eas os termos <em>metastrat\u00e9gie<\/em> e <em>strat\u00e9gique<\/em>, com que Jean-Paul Charnay e Lucien Poirier, respectivamente, procuraram, com as suas diferen\u00e7as, acolher as dimens\u00f5es n\u00e3o operativas da estrat\u00e9gia, a seus olhos muito importantes. A <em>strat\u00e9gie<\/em> diria ent\u00e3o respeito apenas \u00e0 ac\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica e \u00e0 sua envolv\u00eancia directa propriamente ditas. A nosso ver, criar um outro termo, como meta-estrat\u00e9gia, seria dessangrar a estrat\u00e9gia de dimens\u00f5es nucleares, n\u00e3o exteriores, mas interiores, basilares ao seu \u00e2mago praxista.<\/p>\n\n\n\n<p>Abel Cabral Couto defende ser a estrat\u00e9gia contempor\u00e2nea um fen\u00f3meno em todos os azimutes, que qualifica com propriedade e usando uma express\u00e3o feliz, como vers\u00e3o sinf\u00f3nica da estrat\u00e9gia. A Grande Guerra lan\u00e7a as prim\u00edcias decisivas para a ultrapassagem de uma estrat\u00e9gia ainda aperrada em exclusivo \u00e0 servid\u00e3o militar, em direc\u00e7\u00e3o \u00e0 estrat\u00e9gia como recital de um instrumento a solo, nas palavras do estrategista portugu\u00eas, caracter\u00edstica da \u00e9poca da guerra total,<a href=\"#_ftn5\">[5]<\/a> uma estrat\u00e9gia em que o instrumento particular de natureza militar ainda \u00e9 determinante, mas que est\u00e1 j\u00e1 envolvido por todo um conjunto de dimens\u00f5es de apoio, mobilizadas entretanto, e que ser\u00e3o o embri\u00e3o das futuras estrat\u00e9gias econ\u00f3mica, diplom\u00e1tica (talvez esta seja logo, muito precocemente, a primeira a despontar), ideol\u00f3gica, cultural, comunicacional, entre outras poss\u00edveis. \u00c9 a estrat\u00e9gia como concerto para um determinado instrumento. A vers\u00e3o a que cheg\u00e1mos, como \u00e9 sabido, \u00e9 a da estrat\u00e9gia integral, onde se procura que os diversos naipes de instrumentos, as diversas estrat\u00e9gias gerais, promovam harmoniosamente a manobra conjunta.<a href=\"#_ftn6\">[6]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 ent\u00e3o esta marca de \u00e1gua que Abel Cabral Couto transmite aos seus disc\u00edpulos, a qual tem permitido \u00e0 escola portuguesa fazer um trabalho de vanguarda na teoria da estrat\u00e9gia, na \u00e1rea da investiga\u00e7\u00e3o fundamental dos estudos estrat\u00e9gicos, sem descurar a hist\u00f3ria da estrat\u00e9gia, provavelmente \u00fanico at\u00e9 ao momento.<\/p>\n\n\n\n<p>Numa segunda vaga da Escola, e \u00e0 parte autores que n\u00e3o se inserindo nela directamente t\u00eam colaborado com os seus membros, o caso de Jo\u00e3o Vieira Borges, na hist\u00f3ria da estrat\u00e9gia, Silva Ribeiro no planeamento estrat\u00e9gico, Mendes Dias na polemologia, Lemos Pires e Bruno Cardoso Reis, no cruzamento da estrat\u00e9gia, com a hist\u00f3ria e os estudos da guerra, devemos mencionar tr\u00eas disc\u00edpulos directos de Abel Cabral Couto.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde logo, Francisco Abreu, que tem defendido, de forma pioneira, a legitimidade de uma estrat\u00e9gia empresarial, n\u00e3o como ramo particular de qualquer estrat\u00e9gia econ\u00f3mica no seio da estrat\u00e9gia integral, mas pensando o mundo empresarial enquanto universo estrat\u00e9gico <em>de jure<\/em>, por analogia com o edif\u00edcio da estrat\u00e9gia integral, e com este estabelecendo rela\u00e7\u00f5es de afinidade estrutural. O estrategista portugu\u00eas tem o cuidado de assinalar que n\u00e3o v\u00ea a competi\u00e7\u00e3o empresarial como uma ag\u00f3nica regrada, antes uma luta pura e dura pela sobreviv\u00eancia, crit\u00e9rio maior, na sua perspectiva, para definir a estrat\u00e9gia (Abreu, 2002; Abreu, 2004: 180). Claro est\u00e1 que uma posi\u00e7\u00e3o inovadora, e distante daquela em que a estrat\u00e9gia empresarial aparece acriticamente no mercado das ideias, comporta algumas dificuldades, das quais a principal talvez seja a relativa ao lugar epistemol\u00f3gico ocupado pelo cliente nessa ag\u00f3nica inter-empresarial, da qual n\u00e3o pode ser exclu\u00eddo de todo, embora de ag\u00f3nico em si a sua condi\u00e7\u00e3o de cliente nada tenha.<\/p>\n\n\n\n<p>Ant\u00f3nio Paulo Duarte tem tido um original\u00edssimo contributo sobre as rela\u00e7\u00f5es entre a guerra e a estrat\u00e9gia, nomeadamente na sua exegese inovadora do significado de guerra absoluta em Clausewitz, enquanto n\u00facleo irredut\u00edvel \u00faltimo a toda a estrat\u00e9gia que se anicha no fen\u00f3meno b\u00e9lico propriamente dito. Configurando a guerra uma fenomenologia que comporta no seu cerne uma enorme doze de sem-sentido, de ca\u00f3tica, para os seus diversos actores, a qual se repercute em todos os escal\u00f5es, desde o t\u00e9cnico-t\u00e1ctico ao estrat\u00e9gico, em todo o tempo. A guerra teria assim uma irredutibilidade \u00faltima ao n\u00edvel da ac\u00e7\u00e3o que seria n\u00e3o s\u00f3 especificamente b\u00e9lica <em>qua<\/em> b\u00e9lica, mas especificamente pol\u00edtica, n\u00e3o no que diz respeito \u00e0 teleologia pol\u00edtica, mas ao momento cin\u00e9tico radical por excel\u00eancia da ac\u00e7\u00e3o pol\u00edtica no seu exerc\u00edcio puro e soberano, exerc\u00edcio esse que a vem caracterizando na modernidade: o estado de excep\u00e7\u00e3o. Ao mesmo tempo, Ant\u00f3nio Paulo Duarte tem procurado desenvolver uma nova vis\u00e3o da guerra, segundo a qual, a experi\u00eancia da cat\u00e1strofe da guerra \u00e9 necess\u00e1ria, sem escamotear a dor e o sem-sentido aqui e agora da viol\u00eancia, para captar o sentido intemporal alojado no abissal, o da destrui\u00e7\u00e3o como g\u00e9nese ou mesmo partog\u00e9nese de novos estados de vida. O estrategista portugu\u00eas n\u00e3o se limita assim a querer recuperar a tese do progresso civilizacional pela guerra, atrav\u00e9s de uma esp\u00e9cie de ast\u00facia da raz\u00e3o, revestindo-a de novas e sofisticadas vestes, ou mesmo simplesmente a retomar, enaltecendo-a, a vis\u00e3o da guerra como momento necess\u00e1rio na marcha org\u00e2nica da hist\u00f3ria, segundo J\u00fcnger (Duarte, 2013: 34-65).<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 Ant\u00f3nio Horta Fernandes tem desenvolvido trabalho em torno da ideia de estrat\u00e9gia como \u00e9tica do conflito, prud\u00eancia para al\u00e9m de toda a prud\u00eancia. Com ela quer-se encontrar no exerc\u00edcio estrat\u00e9gico um instrumento que, <em>ab initio<\/em>, promove uma racionaliza\u00e7\u00e3o prudencial do conflito, com vista ao seu transbordamento por uma paz substantiva e perp\u00e9tua, tendo a sua dimens\u00e3o fontal para al\u00e9m da conting\u00eancia hist\u00f3rica, sem obviamente a recusar. A estrat\u00e9gia seria ent\u00e3o um saber e uma pr\u00e1xis orientada por uma \u00e9tica prudencial de acolhimento muito mais do que de vit\u00f3ria, perfilada ao Bem, isto \u00e9, \u00e0 abertura ao outro, com o paradoxal estatuto de ir apurando o modo de melhor conduzir as hostilidades ao mesmo tempo que as vai emboscando; armando a paz poss\u00edvel enquanto determinada paz armada, no fito de que s\u00f3 a paz seja poss\u00edvel. Em s\u00edntese, uma prud\u00eancia (no senso diano\u00e9tico) que pretende revelar que quando toda a prud\u00eancia foi ultrapassada, qualquer limita\u00e7\u00e3o e conten\u00e7\u00e3o \u00e9 j\u00e1 um golpe profundo \u00e0 (<em>des<\/em>-)economia do mal, porque desferido no pr\u00f3prio campo deste (Fernandes, 2011; e ainda, Fernandes, 2017).<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Exegese cr\u00edtica de algumas contribui\u00e7\u00f5es exaradas do meio estrat\u00e9gico anglo-americano<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Perante um cen\u00e1rio te\u00f3rico da envergadura do acabado de tra\u00e7ar, e tendo em aten\u00e7\u00e3o a relev\u00e2ncia das contribui\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas decisivas da escola francesa, com que \u00e9 que nos deparamos no quadro definit\u00f3rio dos estudos estrat\u00e9gicos na actualidade, em revistas ditas de ponta, como o <em>Journal of Strategic Studies<\/em>, ou em autores que parecem estabelecer doutrina por via da capacidade de atrac\u00e7\u00e3o te\u00f3rica do meio donde prov\u00eam? Deparamo-nos precisamente com um reducionismo inaceit\u00e1vel, n\u00e3o justificado nem \u00f4ntica nem epistemologicamente, e que tende a encostar a estrat\u00e9gia ao vector militar. Sem levar em conta que o impasse nuclear da guerra fria obrigou a desenvolver outras formas de guerra que n\u00e3o s\u00f3 a luta armada e concomitantes estrat\u00e9gias, para al\u00e9m da estrat\u00e9gia militar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, atendendo em primeiro lugar a uma recente contribui\u00e7\u00e3o publicada no&nbsp; <em>Journal of Strategic Studies<\/em>, Isabel Duyvesteyn e James Worral afirmam ser a estrat\u00e9gia um campo interdisciplinar onde se procura compreender as vias pelas quais o poder militar e outras formas de coa\u00e7\u00e3o podem ser usadas para atingir objectivos pol\u00edticos, no seio de uma din\u00e2mica competitiva de vontades antag\u00f3nicas (Duyvesteyn &amp; Worral, 2017: 347).<\/p>\n\n\n\n<p>Para al\u00e9m da defini\u00e7\u00e3o em causa poder resvalar perigosamente para um \u00e2mbito competitivo gen\u00e9rico capaz de obliterar o agonismo hostil, para l\u00e1 das regras, uma vez que a guerra \u00e9 o valor de utilidade marginal do agonismo hostil, e \u00e9 \u00f4ntica, sociol\u00f3gica e politicamente um fen\u00f3meno excepcional, muito distinto da competi\u00e7\u00e3o regrada, o problema maior reside no acento t\u00f3nico posto no vector militar, como se as restantes formas de coac\u00e7\u00e3o fossem supletivas desse vector, como, de resto, a continua\u00e7\u00e3o do artigo corrobora. Ali\u00e1s, n\u00e3o se trata de um mero artigo, antes de um manifesto, segundo os seus autores, no sentido de bem escorar os estudos estrat\u00e9gicos, e no mesmo passo moderniz\u00e1-los e abri-los a uma maior interdisciplinariedade. Quer isto dizer que o suposto \u00faltimo grito acad\u00e9mico sobre a mat\u00e9ria se vem situar afinal muito atr\u00e1s de desenvolvimentos conceptuais, no m\u00ednimo com 60 anos, querendo afian\u00e7ar como boa uma leitura ainda predominantemente geoc\u00eantrica, permita-se-nos a analogia, num mundo cientificamente j\u00e1 muito para al\u00e9m do heliocentrismo cl\u00e1ssico. Ou se quisermos, num mundo onde a astrof\u00edsica anda \u00e0 procura da melhor maneira de incorporar a qu\u00e2ntica. Note-se pois a <em>d\u00e9calage <\/em>de abordagens, e mesmo a dificuldade de di\u00e1logo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 claro que estes autores n\u00e3o est\u00e3o sozinhos. Por exemplo, e numa l\u00f3gica de manual, os estrategistas Thomas Kane e David Lonsdale, defendem, num livro que justamente quer fazer de manual, transmitindo, por conseguinte, o melhor do consabido, que \u201c<em>strategy is the process that converts military power into policy effect<\/em>\u201d (Kane &amp; Lonsdale, 2012: 10). Seria de esperar que, reduzindo a estrat\u00e9gia \u00e0 servid\u00e3o militar, n\u00e3o haveria quaisquer escolhos na defini\u00e7\u00e3o de estrat\u00e9gia militar, porquanto a estrat\u00e9gia no seu todo nem sequer se esgota na estrat\u00e9gia integral, mesmo que esta se reduza ao militar. A estrat\u00e9gia no seu todo, como j\u00e1 afirm\u00e1mos, tem de cuidar do seu pr\u00f3prio modo de produ\u00e7\u00e3o, da rela\u00e7\u00e3o da disciplina estrat\u00e9gica com outros saberes, ao mesmo tempo que cuida de saber quais s\u00e3o os sujeitos da estrat\u00e9gia e de que forma se estrutura o seu campo objectual, nomeadamente quais as rela\u00e7\u00f5es que estabelece com a pol\u00edtica e com a t\u00e1ctica. Pois bem, desgra\u00e7adamente, qui\u00e7\u00e1 supondo que assim se mant\u00eam coerentes, os autores remetem a estrat\u00e9gia militar para os n\u00edveis de condu\u00e7\u00e3o t\u00e1ctica e operacional (Kane &amp; Lonsdale, 2012: 14). Como se o todo da estrat\u00e9gia remetesse de imediato para a dimens\u00e3o de aplica\u00e7\u00e3o por parte dos actores, e consistindo essa aplica\u00e7\u00e3o na convers\u00e3o do poder militar em efeitos pol\u00edticos de direc\u00e7\u00e3o e governo, s\u00f3 restasse \u00e0 estrat\u00e9gia militar a condu\u00e7\u00e3o das opera\u00e7\u00f5es, supostamente o registo mais puramente militar que se pode encontrar, uma vez que o gen\u00e9tico e o estrutural remeteriam para a conjuga\u00e7\u00e3o do militar com outros factores de accionamento. Estamos ent\u00e3o perante a mais ser\u00f4dia das vis\u00f5es do problema estrat\u00e9gico, ao destacar sobremaneira o militar e neste o n\u00edvel operacional, ainda para mais encostando-o ao n\u00edvel t\u00e1ctico. Todavia, como parecem querer reconhecer outras dimens\u00f5es operantes na estrat\u00e9gia contempor\u00e2nea, tal \u00e9 a sua evid\u00eancia, estes autores acabam por definir a estrat\u00e9gia militar como o uso do poder militar em apoio da grande estrat\u00e9gia (Kane &amp; Lonsdale, 2012: 13). Grande estrat\u00e9gia essa definida, por sua vez, como a combina\u00e7\u00e3o das actividades militares com outras formas de ac\u00e7\u00e3o (Kane &amp; Lonsdale, 2012: 112). Mas tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 menos certo que Kane e Lonsdale continuam a ver na grande estrat\u00e9gia o predom\u00ednio do militar, n\u00e3o sendo tamb\u00e9m totalmente claro se as outras formas de ac\u00e7\u00e3o que se mesclam com a estrat\u00e9gia para produzir resultados estrat\u00e9gicos s\u00e3o estrat\u00e9gicas, em sentido pr\u00f3prio, ou respondem a distintos empreendimentos e planos \u2013 d\u00e1 ideia que o n\u00e3o s\u00e3o, at\u00e9 pela defini\u00e7\u00e3o inicial de estrat\u00e9gia. O que levanta de imediato a aporia de se estender a estrat\u00e9gia \u00e0s tarefas de planeamento em geral evacuando o ag\u00f3nico.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 certo que autores como Colin Gray ou Beatrice Heuser s\u00e3o mais complexos, apartados do ramalhete de respostas equivocadas e de receitas imediatistas <em>fast food<\/em>. Gray define a grande estrat\u00e9gia, o termo anglo-sax\u00f3nico pr\u00f3ximo para estrat\u00e9gia integral, do seguinte modo:<\/p>\n\n\n\n<p>the direction and use made of many or all among the total assets of a security community in support of its policy goals as decided by politics. The theory and practice of grand strategy is the theory and practice of statecraft itself (Gray, 2010: 18).<\/p>\n\n\n\n<p>Constatando-se que para acolher distintas formas de luta, o que \u00e9 mais, para que n\u00e3o haja um predom\u00ednio militar na defini\u00e7\u00e3o, o autor v\u00ea-se obrigado a quase evacuar o agonismo da estrat\u00e9gia, fazendo com que a grande estrat\u00e9gia coincida com a ac\u00e7\u00e3o geral e global do Estado no seu conjunto, a qual, mesmo pressupondo racionais realistas, n\u00e3o se reduz aos objectivos pass\u00edveis de criar hostilidade de uma outra vontade pol\u00edtica. \u00c9 como se para se centrar na luta propriamente dita o vector militar tivesse de ser novamente privilegiado.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 Beatrice Heuser afirma ser dif\u00edcil encontrar uma defini\u00e7\u00e3o universalmente v\u00e1lida de estrat\u00e9gia atrav\u00e9s dos tempos. Ainda assim, conclui, com base nos resultados obtidos por sucessivas gera\u00e7\u00f5es de estrategas e de estrategistas, ser a estrat\u00e9gia uma via global atrav\u00e9s da qual se procura realizar fins pol\u00edticos, incluindo a\u00ed a amea\u00e7a ou o uso efectivo da for\u00e7a, no \u00e2mbito de uma dial\u00e9ctica de vontades (Heuser, 2013: 27).&nbsp; Uma vez mais se corre o risco de evacuar o agonismo, n\u00e3o fosse a import\u00e2ncia atribu\u00edda \u00e0 dial\u00e9ctica de vontades, mas ainda assim abrindo a porta a considerar todo o agonismo, tanto o hostil como o competitivo regrado. Todavia, mais importante, se bem que a estrategista de origem alem\u00e3 n\u00e3o mencione de que uso da for\u00e7a se trata, podendo, portanto, alargar-se a formas de confronta\u00e7\u00e3o distintas da luta armada, o conjunto da obra sobre a evolu\u00e7\u00e3o da estrat\u00e9gia acaba por centrar-se na estrat\u00e9gia militar.<\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, o caso do conhecido estrategista nuclear Lawrence Freedman, que na introdu\u00e7\u00e3o da sua mais recente obra, intitulada <em>Strategy <\/em>(Freedman, 2016), oferece uma vers\u00e3o absolutamente desastrada da estrat\u00e9gia. De acordo com Freedman, para fugir \u00e0 domin\u00e2ncia militar, fazendo justi\u00e7a \u00e0 evolu\u00e7\u00e3o da pr\u00e1tica estrat\u00e9gica e ao potencial caleidosc\u00f3pico do conceito, a estrat\u00e9gia \u00e9 intencionalmente alargada a todo o espa\u00e7o ag\u00f3nico, e at\u00e9 para al\u00e9m dele, nos cap\u00edtulos finais. Entretanto, Freedman vai ao ponto de iniciar o corpo do texto com a sociedade de chipanz\u00e9s, como se n\u00e3o houvesse nenhuma rotura poss\u00edvel em torno da intencionalidade e da linguagem entre o homem e o animal, um tema que s\u00f3 por si mereceria umas quantas p\u00e1ginas, as quais, contudo, nos afastariam do prop\u00f3sito central do presente artigo.<\/p>\n\n\n\n<p>A inflac\u00e7\u00e3o sem\u00e2ntica do campo conceptual da estrat\u00e9gia, ora impl\u00edcita, ora expl\u00edcita em Freedman, para al\u00e9m da constata\u00e7\u00e3o \u00f3bvia de que se estendermos demasiado o campo objectual da estrat\u00e9gia, corremos o risco de tudo passar a ser estrat\u00e9gia, e logo nada ser estrat\u00e9gia, diluindo o objecto, n\u00e3o tem em aten\u00e7\u00e3o importantes quest\u00f5es \u00e9ticas, para l\u00e1 das epistemol\u00f3gicas. O uso do termo em contextos triviais e an\u00f3dinos para todo e qualquer plano, a mais das vezes de forma anal\u00f3gica, \u00e9 j\u00e1 de si suficientemente grave porque se vai contaminando a linguagem, que nunca \u00e9 neutra, com uma terminologia oriunda da guerra. Os resultados est\u00e3o por verificar, mas n\u00e3o auguram nada de bom: uma linguagem da viol\u00eancia s\u00f3 pode fazer ainda mais violentos os tecidos sociais quando ensimesmada, pois n\u00f3s n\u00e3o podemos ter mundo a n\u00e3o ser atrav\u00e9s da linguagem. Mais grave ainda \u00e9 quando a comunidade cient\u00edfica se arroga de usar como boa, para distintas tarefas, uma terminologia que n\u00e3o s\u00f3 configura um espa\u00e7o objectual aut\u00f3nomo, com m\u00e9todos espec\u00edficos, um substrato \u00f4ntico regional intr\u00ednseco, tudo isto configurando um lugar epistemol\u00f3gico individualizado, como, sobretudo, se refere a um campo onto-praxista plasmado numa determinada racionalidade social geradora de fins pr\u00f3prios face ao conflito hostil.<\/p>\n\n\n\n<p>O problema com as tentativas de o alargamento do objecto da estrat\u00e9gia a todas as manifesta\u00e7\u00f5es ag\u00f3nicas, e a cr\u00edtica vale n\u00e3o s\u00f3 para Freedman mas igualmente para todos os autores que vimos atr\u00e1s e demais estrategistas que pretendam seguir pela mesmo senda, \u00e9 que essas tentativas esbarram n\u00e3o s\u00f3 com aporias epistemol\u00f3gicas, pois o alargamento fenomenol\u00f3gico do espectro da estrat\u00e9gia \u00e0s manifesta\u00e7\u00f5es mais benignas de competitividade dissolve, em parte, o pr\u00f3prio agonismo, o caso dos desportos individuais, mas sobretudo enfrentam o muito mais poderoso obst\u00e1culo \u00e9tico. Obst\u00e1culo a recordar-lhes que esparzir a estrat\u00e9gia para al\u00e9m das fronteiras da hostilidade (fronteiras porosas como todas o s\u00e3o) \u00e9 incendiar \u00e1reas estruturalmente regradas e pac\u00edficas com racionais de natureza agressiva, encrespando com um novo factor de viol\u00eancia desnecess\u00e1rio os tecidos sociais, j\u00e1 de si muito perme\u00e1veis na contemporaneidade a interiorizar quaisquer catalisadores de viol\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas por que raz\u00e3o \u00e9 este obst\u00e1culo \u00e9tico verdadeiramente decisivo, n\u00e3o apenas a constata\u00e7\u00e3o de um problema sociol\u00f3gico complexo, antes uma real pun\u00e7\u00e3o \u00e9tica e uma pun\u00e7\u00e3o \u00e9tica de assinal\u00e1vel magnitude? Precisamente por causa da condi\u00e7\u00e3o \u00f4ntica excepcional da guerra. Expliquemo-nos: a estrat\u00e9gia incide sobre toda fenomenologia da hostilidade entre actores pol\u00edticos, a qual a guerra n\u00e3o esgota: s\u00e3o exemplo, as manobras de constrangimento sobre aliados e neutros; as estrat\u00e9gias inversas (a hostilidade por meio de ac\u00e7\u00f5es anti-hostis); algumas das opera\u00e7\u00f5es de apoio \u00e0 paz; ou ainda ac\u00e7\u00f5es v\u00e1rias de apoio \u00e0s popula\u00e7\u00f5es no \u00e2mbito da contra-subvers\u00e3o, tendo como objectivo seduzi-las com o fito de derrotar o advers\u00e1rio. Todavia, a hostilidade em si tem seu aferidor \u00faltimo, o seu valor de utilidade marginal, a por\u00e7\u00e3o que estabelece o pre\u00e7o, na guerra absoluta: ca\u00f3tica irreprim\u00edvel, n\u00facleo abissal presente em qualquer conflagra\u00e7\u00e3o, o extremo da viol\u00eancia contumaz e refract\u00e1rio a qualquer inscri\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, sempre \u00e0 espreita com vista a assenhorear-se do terreno, porque o que \u00e9 pr\u00f3prio desse extremo \u00e9 materializar-se na plenitude. Logo, \u00e9 o car\u00e1cter de absoluta excep\u00e7\u00e3o da guerra em rela\u00e7\u00e3o ao normal processo social, daquilo que se alimenta e se recreia no para al\u00e9m das regras, a dar o tom que afere a fenomenologia da hostilidade. Nesse sentido, seria inconceb\u00edvel, desde logo em termos l\u00f3gicos, que a hostilidade e a competi\u00e7\u00e3o pudessem fazer parte do mesmo horizonte: a excep\u00e7\u00e3o relaciona-se com a norma, pode at\u00e9 vigorar como se de norma se tratasse, pode inclusive pensar-se que a norma n\u00e3o seja mais do que um hiato na din\u00e2mica pr\u00f3pria \u00e0 decis\u00e3o soberana em pol\u00edtica, mas enquanto tais, norma e excep\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o figuras que tenham atributos similares, ou uma concretude aproximada, de modo a fazerem parte da mesma extens\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Claro est\u00e1 que se pode e deve perguntar por que raz\u00e3o insistimos nos aspectos \u00e9ticos do problema, em vez de apontar t\u00e3o s\u00f3 a incoer\u00eancia l\u00f3gica acabada de precisar. A raz\u00e3o est\u00e1 justamente em que diante do abismo negro, do inaudito da viol\u00eancia da guerra, a que a estrat\u00e9gia procura responder como contraluz, quinta-coluna de conten\u00e7\u00e3o por dentro desse mesmo inaudito, n\u00e3o s\u00f3 a resposta puramente l\u00f3gica \u00e9 curta &#8211; ali\u00e1s remarc\u00e1-la at\u00e9 ao fim expondo a inanidade da sem-raz\u00e3o de querer p\u00f4r em conjunto processos incompat\u00edveis de raiz pressup\u00f5e j\u00e1 a mobiliza\u00e7\u00e3o de recursos \u00e9ticos com anterioridade -, como o pr\u00f3prio ser da estrat\u00e9gia assim o exige. Basta pensar que o pre\u00e7o a pagar pela extens\u00e3o da estrat\u00e9gia a todo o universo ag\u00f3nico \u00e9 a normaliza\u00e7\u00e3o estrutural da guerra como fen\u00f3meno ag\u00f3nico entre outros, variando em tonalidade, ou em grau, segundo os diversos autores, mas n\u00e3o em g\u00e9nero. Por\u00e9m, a normaliza\u00e7\u00e3o da guerra, no momento em que perfaz uma contradi\u00e7\u00e3o l\u00f3gica com a sua pr\u00f3pria \u201cnatureza\u201d \u00e9 ao mesmo tempo e justamente por essa contradi\u00e7\u00e3o um absurdo \u00e9tico, ao normalizar, quer dizer, ao naturalizar e trivializar a ascens\u00e3o aos extremos, e com ela a possibilidade da aniquila\u00e7\u00e3o pura e simples. Ora, como a racionaliza\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica, enquanto tal pondera\u00e7\u00e3o sem mais de meios e modalidades de ac\u00e7\u00e3o, \u00e9 j\u00e1 visceralmente um exerc\u00edcio de conten\u00e7\u00e3o, o primado da preocupa\u00e7\u00e3o e injun\u00e7\u00e3o \u00e9tica faz todo o sentido. N\u00e3o quer isto dizer, de modo algum, que o uso estrat\u00e9gico da viol\u00eancia por dentro da viol\u00eancia acabe por poder ser considerado esp\u00fario \u00e0 luz dos elevados des\u00edgnios que substantivam a estrat\u00e9gia. Quanto mais n\u00e3o seja porque, como afirma te\u00f3logo Tom\u00e1\u0161 Hal\u00edk, num correctivo <em>inmerojable<\/em> a todos os pacifismos <em>\u00e0 outrance<\/em>, \u201cs\u00f3 podemos dar <em>a nossa pr\u00f3pria face<\/em> se houver esperan\u00e7a de que isso trave o mal, mas n\u00e3o podemos dar as faces dos outros; eles devem ser defendidos: essa responsabilidade \u00e9 nossa\u201d (Hal\u00edk, 2016: 188). Naturalmente, a dimens\u00e3o \u00e9tica da estrat\u00e9gia a este n\u00edvel tem de ser compreendida de forma ken\u00f3tica.<\/p>\n\n\n\n<p>Donde resultam afinal todas as aporias e defici\u00eancias de base detectadas na escola, ou nas escolas anglo-sax\u00f3nicas? Julgamos que as escolas anglo-americanas est\u00e3o ainda muito presa \u00e0s teses de Liddell Hart. O estrategista brit\u00e2nico distingue a estrat\u00e9gia pura, que \u00e9, no fundo, a estrat\u00e9gia militar, da grande estrat\u00e9gia, como dizendo respeito \u00e0 pol\u00edtica em acto face ao conflito hostil (Liddell Hart, 1991).<a href=\"#_ftn7\">[7]<\/a> Pol\u00edtica de defesa (acentuando o vector militar) e estrat\u00e9gia integral aparecem assim amalgamadas, e se bem que os acad\u00e9micos anglo-sax\u00f3nicos contempor\u00e2neos saibam perfeitamente que a estrat\u00e9gia integra hoje outras dimens\u00f5es que n\u00e3o exclusivamente a militar, como j\u00e1 referimos, quando se referem \u00e0 estrat\u00e9gia <em>per si<\/em>, fruto ainda de um enquistamento das teorias realistas e dos racionais herdados de Liddell Hart, pensam sobretudo no aparelho militar, ou se quisermos, no <em>hard power<\/em>, o que tende a encostar a estrat\u00e9gia ao militar. Ora, como nem sempre para os pr\u00f3prios \u00e9 claro (mesmo quando est\u00e3o conscientes que estrat\u00e9gia e estrat\u00e9gia militar n\u00e3o se sobrep\u00f5em) se, em \u00faltima an\u00e1lise, a estrat\u00e9gia n\u00e3o remete para o militar e a grande estrat\u00e9gia para uma pol\u00edtica de defesa escorada ultimamente no vector militar, a ambiguidade permanece. Isto porque, em \u00faltima inst\u00e2ncia, a literatura anglo-americana acaba por sobrepor em demasia guerra e estrat\u00e9gia, atrav\u00e9s do vector militar operacional. Lido este \u00faltimo, por sua vez, e em grande medida, pelas suas pautas de emprego na guerra convencional e pela ideia do combate, mormente o combate cl\u00e1ssico, como raz\u00e3o de ser quase exclusiva para o emprego das for\u00e7as armadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Os autores anglo-americanos tendem a encontrar um ideal-tipo de guerra, a guerra convencional oitocentista, dizendo respeito ao enfrentamento de ex\u00e9rcitos regulares, enquadrados como tais, sob perten\u00e7a de actores estaduais, que se digladiam de acordo com regras de manobra, atrito e empenhamento em fun\u00e7\u00e3o da batalha, dos cercos, e mais tarde, da sequ\u00eancia de batalhas. Face a esta ideal-tipo, que n\u00e3o tem porque o ser, atendendo \u00e0 hist\u00f3ria da guerra, e do qual brotam todo um conjunto de tipologias menos avisadas, como a de guerra h\u00edbrida, novas guerras, entre outras, a estrat\u00e9gia por defini\u00e7\u00e3o \u00e9 a estrat\u00e9gia militar. Quando muito as restantes estrat\u00e9gias s\u00e3o estrat\u00e9gias subsidi\u00e1rias, ou ent\u00e3o, atendendo a que a guerra da Idade Contempor\u00e2nea \u00e9 uma guerra industrial e que n\u00e3o nos podemos centrar apenas na conduta da guerra e no campo de batalha, havendo que prepar\u00e1-la a montante e em v\u00e1rias dimens\u00f5es, essas outras dimens\u00f5es ser\u00e3o basilares para suportar o esfor\u00e7o de guerra, contributos essenciais para que finalmente a for\u00e7a armada desenvolva o seu trabalho de forma proficiente. Nesse sentido, as restantes estrat\u00e9gias gerais, econ\u00f3mica, psicol\u00f3gica, cultural, comunicacional, diplom\u00e1tica, ou o que mais for, seriam estrat\u00e9gia mas t\u00e3o-somente na medida em que contribuiriam como alicerces determinantes para o esfor\u00e7o b\u00e9lico. Seriam ou indirectamente ramos da estrat\u00e9gia, ou directamente, mas de forma coadjuvante. Em s\u00edntese, n\u00e3o seriam vectores puramente estrat\u00e9gicos, seriam sim estrat\u00e9gicos enquanto suportavam e participavam do esfor\u00e7o de guerra. Isto a despeito da realidade mostrar diversas modalidades de guerra econ\u00f3mica, psicol\u00f3gica, cultural, entre outras, e dos pr\u00f3prios pa\u00eds matrizes dessa escola se verem envolvidos em conflitos desse tipo. \u00c9 como se estivessem em causa modalidades derivadas de guerra, e, por conseguinte, modalidades derivadas de estrat\u00e9gia, n\u00e3o integralmente b\u00e9licas umas e n\u00e3o integralmente estrat\u00e9gicas as outras, confundindo assim coisas distintas.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma coisa \u00e9 existir vector militar s\u00f3 porque h\u00e1 guerra e conflito hostil na hist\u00f3ria humana e nesta a luta armada ter sido predominante, ao contr\u00e1rio das esferas da vida econ\u00f3mica, cultural, diplom\u00e1tica (esta menos), etc., que n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o se esgotam na conflitualidade como o seu principal papel n\u00e3o \u00e9 esse. Outra coisa \u00e9 a possibilidade de mobilizar para o confronto essas esferas, transform\u00e1-las em vector de luta. Nesse caso, essas esferas n\u00e3o se esgotam por defini\u00e7\u00e3o na luta, mas enquanto est\u00e3o mobilizadas para tal e na quota-parte que assumem nela (ou, com mais propriedade, s\u00e3o assumidas politicamente como vectores de luta), s\u00e3o integralmente, por inteiro, nem mais nem menos importantes que o vector militar, ou at\u00e9 mais nalguns casos, a pensar no confronto entre as super-pot\u00eancias na guerra fria.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma terceira coisa ainda mais distinta diz respeito ao conceito de guerra. Se partirmos do conceito de guerra adoptada pelo estrategista Ant\u00f3nio Horta Fernandes (Fernandes, 2017: 165), j\u00e1 por si adoptado de Abel Cabral Couto (Couto, 1988: 148), deparamos com a seguinte defini\u00e7\u00e3o de guerra:<\/p>\n\n\n\n<p>viol\u00eancia (enquanto luta, duelo em escala) entre grupos pol\u00edticos (ou grupos com objectivos pol\u00edtico-sacrais), em que o recurso \u00e0 luta armada constitui, pelo menos, uma possibilidade potencial, visando um determinado fim nos limites (de prefer\u00eancia exteriores) da pol\u00edtica (ou fins pol\u00edticos em grande parte, mas n\u00e3o na totalidade, a partir da modernidade), a qual em qualquer dos casos se serve desse fim, dirigida contra as fontes do poder advers\u00e1rio e desenrolando-se segundo um jogo cont\u00ednuo de probabilidades e acasos.<\/p>\n\n\n\n<p>Na defini\u00e7\u00e3o de guerra acima citada, a luta armada ser pelo menos uma possibilidade potencial inescus\u00e1vel, porquanto \u00e9 a guerra absoluta a dar o valor de utilidade marginal do fen\u00f3meno guerra, a dar consist\u00eancia \u00e0 guerra como fen\u00f3meno espec\u00edfico, n\u00e3o havendo z\u00e9nite da luta sem luta armada. A refer\u00eancia \u00e0 luta armada como uma possibilidade no m\u00ednimo potencial n\u00e3o pretende assim significar que se trata de uma modalidade de luta conceptualmente superior \u00e0s restantes, o que as transformaria de imediato em formas de infra-guerra, antes quer assinalar ser a luta armada aquela que mais se presta ao desencadear da viol\u00eancia sem quartel, ao inc\u00eandio geral provocado pela propaga\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia, \u00e0 ca\u00f3tica derradeira (guerra absoluta) que estabelece o sentido (ou <em>des<\/em>-sentido) do fen\u00f3meno b\u00e9lico e lhe permite adquirir singularidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Um quarto aspecto todavia ainda distinto, de natureza conjuntural, prende-se com a revaloriza\u00e7\u00e3o das for\u00e7as armadas em miss\u00f5es externas, de raiz estrat\u00e9gica mas n\u00e3o de guerra, como acontece com participa\u00e7\u00e3o em muitas das miss\u00f5es internacionais de apoio \u00e0 paz; revaloriza\u00e7\u00e3o essa que tem tido acolhimento nos diferentes documentos oficiais nacionais de natureza estrat\u00e9gica. O que parece assim ser consagrado \u00e9 o papel das for\u00e7as armadas como bra\u00e7o de apoio da pol\u00edtica externa do Estado, em miss\u00f5es que evolu\u00edram para al\u00e9m das cl\u00e1ssicas opera\u00e7\u00f5es de guerra, ao mesmo tempo que se reconhece de forma pr\u00e1tica que as outras estrat\u00e9gias gerais ainda n\u00e3o atingiram o patamar arquitectural da estrat\u00e9gia militar. Pelo que, se todas as estrat\u00e9gias gerais s\u00e3o igualmente importantes, mas a estrat\u00e9gia militar continua a ser aquela que melhor estruturada est\u00e1, ainda para mais quando se alcandora a novos p\u00edncaros, \u00e9 natural que acabe por sobressair. No fundo, est\u00e1-se a reconhecer que se bem que o alcance te\u00f3rico das diversas estrat\u00e9gias esteja perfeitamente estabelecido e seja pac\u00edfico, ainda n\u00e3o houve arte, engenho, vontade ou fortuna de concretizar esse empenho te\u00f3rico no mesmo grau em que foi materializado para a estrat\u00e9gia militar. Assim, depois de alguns anos de elevadas expectativas n\u00e3o concretizadas, os diferentes conceitos estrat\u00e9gicos nacionais, pelo menos os dos pa\u00edses onde a matriz estrat\u00e9gica continental det\u00e9m a prelacia, foram-se ajustando \u00e0 conjuntura; foram dizendo, ainda que n\u00e3o expressamente, que contavam com todas as estrat\u00e9gias gerais de forma integrada, mas como a sua ossatura institucional n\u00e3o estava ainda sedimentada, n\u00e3o poderiam apresentar como tal o que ainda n\u00e3o era realidade institucional t\u00e3o tang\u00edvel quanto a militar. Como o militar ressurgia, num novo sentido, ali\u00e1s, muito pr\u00f3ximo da estrat\u00e9gia diplom\u00e1tica, era e \u00e9 f\u00e1cil, se menos atentos, voltar a querer confundir a estrat\u00e9gia com a sua vertente exclusivamente militar. Quando, na realidade, se continua a praticar guerra e estrat\u00e9gia n\u00e3o militares, por vezes, isso sim, sem o enquadramento mais perfeito. Embora, e isso possa ser paradoxal, s\u00e3o precisamente os pa\u00edses anglo-sax\u00f3nicos os que melhor concretizam, em termos pr\u00e1ticos, esse enquadramento, s\u00f3 que continuando a dar a primazia ao vector militar, n\u00e3o sem importantes amargos de boca, para n\u00e3o dizer fracassos, no caso das guerra subversivas ou insurrecionais no Afeganist\u00e3o ou no Iraque.<\/p>\n\n\n\n<p>Em suma, estamos em crer que as escolas anglo-sax\u00f3nicas nem sempre fazem os devidos recuos reflexivos, seja em raz\u00e3o de um excessivo empirismo, seja por for\u00e7a das necessidades pragm\u00e1ticas de apoio \u00e0 decis\u00e3o. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Uma proposta de estrat\u00e9gia alternativa&nbsp; &nbsp; &nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Face a todas estas aporias conceptuais, \u00e9 a partir da escola estrat\u00e9gica portuguesa que se prop\u00f5e sucintamente, e n\u00e3o em todas as suas deriva\u00e7\u00f5es mais complexas, um quadro conceptual diferente para a estrat\u00e9gia, mas que afinal n\u00e3o pretende fazer mais que retomar o grande quadro hist\u00f3rico-conceptual estabelecido h\u00e1 mais de meio s\u00e9culo.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, e sintetizando ao m\u00e1ximo o ju\u00edzo, porquanto este artigo visa apenas apresentar criticamente o tra\u00e7ado da estrat\u00e9gia a partir de uma reflex\u00e3o de escola situada, podemos definir a estrat\u00e9gia como <em>sabedoria pr\u00e1tica desenvolvida pelos actores pol\u00edticos, com express\u00e3o colectiva, a fim de preparem e conduzirem a conflitualidade hostil uns face aos outros<\/em>. Imp\u00f5e-se ent\u00e3o agora a glosa dos termos.<\/p>\n\n\n\n<p>Referimo-nos a s<em>abedoria pr\u00e1tica<\/em> porque, para al\u00e9m de ser ci\u00eancia, arte e <em>sagesse<\/em>, a estrat\u00e9gia tem, sobretudo, uma dimens\u00e3o \u00e9tica, \u00e9 uma pr\u00e1xis que visa morigerar por dentro os efeitos delet\u00e9rios da delapida\u00e7\u00e3o de recursos humanos e materiais inerentes \u00e0 hostilidade, em particular \u00e0 guerra, at\u00e9 \u00e0 aboli\u00e7\u00e3o desta e \u00e0 instaura\u00e7\u00e3o da paz definitiva. O senso \u00faltimo da sabedoria pr\u00e1tica indica, pois, que a estrat\u00e9gia procura ultimamente abolir-se a si mesma, em sentido escatol\u00f3gico.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Est\u00e3o em causa actores pol\u00edticos, com express\u00e3o colectiva, <\/em>em primeiro lugar porque a viol\u00eancia em quest\u00e3o tem a ver com a problem\u00e1tica do poder e de organiza\u00e7\u00e3o, objectivos e finalidades de colectivos, tendo na guerra a <em>ultima ratio<\/em>, independentemente da \u00f3bvia influ\u00eancia de outros factores que n\u00e3o o pol\u00edtico. Em segundo lugar, os actores pol\u00edticos n\u00e3o t\u00eam de ser necessariamente estaduais, mas t\u00eam de ser diferenciados. O uso da for\u00e7a dentro de um actor unit\u00e1rio, aceite essa unidade, em si mesmo n\u00e3o \u00e9 um assunto estrat\u00e9gico, antes um assunto que, na terminologia portuguesa, diz respeito \u00e0 seguran\u00e7a interna. Por fim, esses actores pol\u00edticos, para terem defini\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica t\u00eam de possuir alguma express\u00e3o colectiva, pelo que os actores individuais com capacidade de afirma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica na cena internacional (Georg Soros \u00e9 um exemplo consabido), mas sem express\u00e3o colectiva m\u00ednima aproveit\u00e1vel, n\u00e3o s\u00e3o actores estrat\u00e9gicos propriamente ditos.<\/p>\n\n\n\n<p>A<em> prepara\u00e7\u00e3o e condu\u00e7\u00e3o da conflitualidade hostil<\/em>, deve-se \u00e0 estrat\u00e9gia ser a tempo inteiro. Prepara o actor pol\u00edtico para um eventual estado de conflitualidade hostil, gere a confitualide hostil de facto e arma a paz poss\u00edvel. Naturalmente que a estrat\u00e9gia o faz debaixo da al\u00e7ada da pol\u00edtica, da\u00ed ser essa gest\u00e3o em primeiro grau pol\u00edtica e s\u00f3 depois estrat\u00e9gica, ainda assim com relativa autonomia desta \u00faltima, de que veremos a seguir as raz\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, falamos em<em> conflitualidade hostil<\/em>, no senso forte de adversarialidade, do \u201cjogo\u201d que se inicia, se alimenta e compraz no para al\u00e9m das regras, independentemente do grau de viol\u00eancia usado. Mas conflitualidade hostil e n\u00e3o apenas guerra, embora esta represente o valor de utilidade marginal daquela, porque h\u00e1 manifesta\u00e7\u00f5es fenom\u00e9nicas de conflitualidade hostil que ainda n\u00e3o s\u00e3o guerra, como sejam a manobra e a press\u00e3o sobre aliados ou neutros, algumas opera\u00e7\u00f5es de apoio \u00e0 paz, as estrat\u00e9gias inversas, ou diversos actos estrat\u00e9gicos de apoio psico-social e desenvolvimento seio da guerra subversiva. De assinalar ainda, que quer estejamos a falar de conflitualidade hostil ou de guerra, as suas manifesta\u00e7\u00f5es n\u00e3o se resumem ao militar e \u00e0 luta armada.<\/p>\n\n\n\n<p>Da citada defini\u00e7\u00e3o resulta a depend\u00eancia pol\u00edtica da estrat\u00e9gia. Todavia, a estrat\u00e9gia n\u00e3o \u00e9 somente uma disciplina instrumental, um meio da pol\u00edtica para lidar com o conflito hostil, sem qualquer autonomia e especificidade. A estrat\u00e9gia \u00e9 uma disciplina de fins interm\u00e9dios e incompletos, a completar na s\u00edntese pol\u00edtica superior. Por essa via, os fins estrat\u00e9gicos e os objectivos estrat\u00e9gicos espec\u00edficos s\u00e3o t\u00e3o estrat\u00e9gicos <em>qua<\/em> estrat\u00e9gicos quanto pol\u00edticos. Todavia, os fins e objectivos estrat\u00e9gicos n\u00e3o se sobrep\u00f5em ou coincidem na totalidade com os objectivos pol\u00edticos que suscitam ou podem suscitar hostilidade, uma vez que a pun\u00e7\u00e3o gerada pela hostilidade, alterando o normal processo social, gera finalidades \u00fanicas, que obrigam a pol\u00edtica a enquadrar essa pun\u00e7\u00e3o violenta no conjunto dos objectivos e finalidades colectivas, isto \u00e9, a sobrecarregar a gest\u00e3o da viol\u00eancia de maneira a evitar a presen\u00e7a solipsista desta. N\u00e3o poucas vezes a estrat\u00e9gia retroage sobre a pol\u00edtica no intuito de corrigir a sua cegueira pr\u00f3-b\u00e9lica. Quer isto dizer que embora estejamos a falar das mesma comunidade ou sociedade que opera politicamente, e da mesma racionalidade social de fundo, tanto mais que a estrat\u00e9gia, no seu enquadramento vertical, despacha cada vez mais pr\u00f3xima da pol\u00edtica e mais distante da t\u00e1ctica, a singularidade do conflito hostil de que a guerra d\u00e1 raz\u00e3o fenomenol\u00f3gica e \u00f4ntica, imp\u00f5e que dentro dessa comunidade e racionalidade s\u00f3cio-pol\u00edtica emerja uma racionalidade pr\u00f3pria s\u00f3 para fazer face a esse sempre novel fen\u00f3meno, por forma a este ser politicamente ponderado com justeza no conjunto dos objectivos e fins do actor pol\u00edtico. Pode estar em causa a sobreviv\u00eancia da pr\u00f3pria comunidade, e nem sempre a racionalidade pol\u00edtica enquanto tal se esquiva ao deslumbramento da viol\u00eancia, quando n\u00e3o a promove; a mais das vezes sendo isso que acontece.<\/p>\n\n\n\n<p>Por\u00e9m, a raz\u00e3o de conjunto decisiva pela qual a estrat\u00e9gia gera fins pr\u00f3prios e a pun\u00e7\u00e3o violenta \u00e9 sentida como anormal tem origem na guerra. A guerra \u00e9 um fen\u00f3meno que ultimamente transborda da pol\u00edtica, atrav\u00e9s de um n\u00facleo ca\u00f3tico politicamente irredut\u00edvel; do n\u00facleo que a pol\u00edtica nunca consegue sobra\u00e7ar e absorver, a que geralmente se d\u00e1 o nome de guerra absoluta. A estrat\u00e9gia, enquanto racionalidade social que intenta tratar, contendo, a guerra, muitas vezes contra o aval da pr\u00f3pria pol\u00edtica, nomeadamente da cin\u00e9tica dos dispositivos soberano-governamentais, tem de soltar-se, ainda que depois a estrat\u00e9gia seja tamb\u00e9m ela impotente face \u00e0 guerra absoluta. De resto, \u00e9 nesta liga\u00e7\u00e3o \u00e0 guerra que se compreende verdadeiramente a autonomia da estrat\u00e9gia. Caso alarguemos o objecto da estrat\u00e9gia essa autonomia, essencial como acab\u00e1mos de ver, perde o sentido, raz\u00e3o de sobra para n\u00e3o estendermos a estrat\u00e9gia a todo o universo conflitual, mormente o de natureza competitiva.<\/p>\n\n\n\n<p>A estrat\u00e9gia, como disciplina de ac\u00e7\u00e3o, como pr\u00e1xis em fun\u00e7\u00e3o da hostilidade, e da guerra nomeadamente, est\u00e1 referida a um ambiente complexo, n\u00e3o-linear, exigindo aprendizagem em situa\u00e7\u00e3o. Assim sendo, a estrat\u00e9gia est\u00e1 obrigada a ser uma disciplina assist\u00e9mica, pelo menos no sentido da sist\u00e9mica mais ou menos mecanicista. Sendo neste contexto que importa sobremaneira entender os erros de c\u00e1lculo, a comunica\u00e7\u00e3o e as informa\u00e7\u00f5es imperfeitas, o risco de envolvimento num processo que a qualquer altura se pode incontrol\u00e1vel por causa da ca\u00f3tica b\u00e9lica como fonte adicional e postrema de imprevisibilidade, e claro est\u00e1, a pura conting\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Contudo, a complexidade n\u00e3o recusa o esfor\u00e7o neguentr\u00f3pico, por isso h\u00e1 uma grelha anal\u00edtica a considerar na divis\u00e3o do trabalho estrat\u00e9gico. No respeitante aos n\u00edveis e ramos da estrat\u00e9gia, temos, ao n\u00edvel superior, a <em>estrat\u00e9gia integral<\/em>, correspondente \u00e0 manobra de conjunto do actor pol\u00edtico. A um n\u00edvel interm\u00e9dio, h\u00e1 a considerar as <em>estrat\u00e9gias gerais<\/em>, militar, econ\u00f3mica, diplom\u00e1tica, cultural, psicol\u00f3gica, comunicacional, etc. Por fim, e imediatamente acima da t\u00e1ctica, como patamar mais baixo da estrat\u00e9gia, est\u00e1 a subdivis\u00e3o que cada uma das estrat\u00e9gias gerais pode ou deve conter, as chamadas <em>estrat\u00e9gias particulares<\/em>. No desdobramento concreto da vontade geral, portanto, na charneira entre a estrat\u00e9gia integral e as estrat\u00e9gias gerais est\u00e3o as formas da estrat\u00e9gia. A <em>estrat\u00e9gia operacional<\/em>, no que toca \u00e0 condu\u00e7\u00e3o dos meios, a <em>estrat\u00e9gia gen\u00e9tica<\/em>, respeitante \u00e0 gera\u00e7\u00e3o de meios, a <em>estrat\u00e9gia estrutural<\/em>, concernindo \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o e articula\u00e7\u00e3o de meios e a <em>estrat\u00e9gia declarat\u00f3ria<\/em>, tendo a ver com os efeitos semi\u00f3ticos, em particular, com os efeitos ret\u00f3ricos dos actos ilocut\u00f3rios e perlocut\u00f3rios na sua rela\u00e7\u00e3o com os meios. Contudo, torna-se necess\u00e1rio precisar que N\u00e3o se deve confundir com a no\u00e7\u00e3o muito mais restrita de estrat\u00e9gia declarat\u00f3ria defendida por Coutau-B\u00e9garie (Coutau-B\u00e9garie, 1999: 403). Embora para o estrategista franc\u00eas tamb\u00e9m se trate de uma estrat\u00e9gia de sinais, ela parece visar unicamente a credibilidade da dissuas\u00e3o nuclear, destinada a orientar o comportamento do advers\u00e1rio e a prevenir os seus erros de c\u00e1lculo. Por isso mesmo, tende igualmente a alienar, em parte, os efeitos mais \u201cmistificat\u00f3rios\u201d da l\u00f3gica da apar\u00eancia, do parecer, do ser como parecer, caracterizadores eminentes das estrat\u00e9gias declarat\u00f3rias. Sendo ainda sob esse segundo aspecto uma no\u00e7\u00e3o mais restritiva. Se da posi\u00e7\u00e3o de Coutau-B\u00e9garie ressalta um pundonor \u00e9tico, desta n\u00e3o resulta menos, porquanto o que est\u00e1 em causa \u00e9 a dimens\u00e3o de jogo, com vista a morigerar e ir desarmando o despaut\u00e9rio da viol\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Notas finais<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Eis ent\u00e3o o edif\u00edcio da estrat\u00e9gia nos seus tra\u00e7os liminares, sem entrar em especificidades de pormenor e sem nos adentrarmos muito na problem\u00e1tica da estrat\u00e9gia como \u00e9tica de conflito, correspondendo no essencial aos contornos que t\u00eam vindo a ser estabelecidos e aceites sobretudo ap\u00f3s a 2\u00aa Guerra Mundial. As quest\u00f5es mais espinhosas sobre o ser da estrat\u00e9gia n\u00e3o podem ter naturalmente lugar neste artigo, embora ajam em pano de fundo, uma vez que se trata, reiteramo-lo de um simples trabalho de apresenta\u00e7\u00e3o, isso sim, como n\u00e3o poderia deixar de ser, em inst\u00e2ncia cr\u00edtica. Ainda assim, uma tal inst\u00e2ncia cr\u00edtica se n\u00e3o escapa, nem o pretendia de todo neste caso, \u00e0 cl\u00e1ssica apresenta\u00e7\u00e3o do estado da arte, f\u00e1-lo tanto quanto poss\u00edvel em moldes continentais, justamente porque os pressupostos metodol\u00f3gicos e conceptuais mais directamente behavioristas da literatura em l\u00edngua inglesa s\u00e3o, em parte, respons\u00e1veis pelo tratamento redutor da escola ou das escolas anglo-americanas atr\u00e1s referidas.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, e para sumariar, a escola portuguesa de estrat\u00e9gia cedo se aproximou da escola francesa em torno de uma vis\u00e3o da estrat\u00e9gia ampla, centrada no conflito hostil, mas aberta a todas as outras dimens\u00f5es do conflito hostil que n\u00e3o apenas a militar; isto \u00e9, encarando modalidades de ac\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica com especificidade de manobra pr\u00f3prias, indo desde o econ\u00f3mico ao cultural. Da mesma forma, o conceito de guerra foi ampliado de modo a conter outras dimens\u00f5es que n\u00e3o s\u00f3 a luta armada; o mesmo \u00e9 dizer a perceber a guerra econ\u00f3mica ou cultural, a t\u00edtulo de exemplo, como formas de guerra usando instrumentos pr\u00f3prios de projec\u00e7\u00e3o de poder para atingir o advers\u00e1rio, seja atrav\u00e9s de bloqueios econ\u00f3micos, restri\u00e7\u00f5es de cr\u00e9ditos, ou o uso de institutos de l\u00edngua e cultura para impor de forma mais ou menos suave a vontade pr\u00f3pria, e n\u00e3o usando os instrumentos militares visando alvos econ\u00f3micos ou culturais, porque essa, sabemo-lo, \u00e9 uma actividade caracter\u00edstica da luta armada e da estrat\u00e9gia militar. &nbsp;Todavia, a escola estrat\u00e9gica portuguesa foi ainda mais al\u00e9m no escoramento da ideia da estrat\u00e9gia como uma pr\u00e1xis visando morigerar por dentro o conflito, lan\u00e7ando para isso uma reflex\u00e3o inovadora em torno dos fundamentos da estrat\u00e9gia e da guerra, em ordem \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de uma nova polemologia, de uma neopolemologia.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Nota sobre o autor:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ant\u00f3nio Horta Fernandes<\/strong> \u00e9 docente do Departamento de Estudos Pol\u00edticos da FCSH\/Universidade Nova de Lisboa e Investigador do IPRI. Auditor da Defesa Nacional, \u00e9 estrategista e neopolemologista.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Abreu, Francisco (2002), <em>Fundamentos da Estrat\u00e9gia Militar e Empresarial. Obter superioridade em contextos conflituais e competitivos<\/em>, Lisboa: S\u00edlabo.<\/p>\n\n\n\n<p>Abreu, Francisco e Fernandes, Ant\u00f3nio Horta (2004), <em>Pensar a Estrat\u00e9gia. Do pol\u00edtico-militar ao Empresarial<\/em>, Lisboa: S\u00edlabo.<\/p>\n\n\n\n<p>Beaufre, Andr\u00e9 (2004), <em>Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 Estrat\u00e9gia<\/em> [trad. portuguesa], Lisboa: S\u00edlabo.<\/p>\n\n\n\n<p>Charnay, Jean-Paul (1990a), <em>Critique de la Strat\u00e9gie<\/em>, Paris: L\u2019Herne.<\/p>\n\n\n\n<p>Charnay, Jean-Paul (1990b), <em>M\u00e9tastrat\u00e9gie. Syst\u00e8mes, formes et principes de la guerre f\u00e9odale \u00e0 la dissuasion nucl\u00e9aire<\/em>, Paris:&nbsp;Economica.<\/p>\n\n\n\n<p>Cotau-B\u00e9garie, Herv\u00e9 (1999), <em>Trait\u00e9 de Strat\u00e9gie<\/em>, Paris: Economica.<\/p>\n\n\n\n<p>Couto, Abel Cabral (1988), <em>Elementos de Estrat\u00e9gia. Apontamentos para um curso,<\/em> 2 vols., Lisboa: IAEM.<\/p>\n\n\n\n<p>Couto, Abel Cabral, (2004),<em>\u201cPosf\u00e1cio<\/em>\u201d, em Abreu, Francisco e Fernandes, Ant\u00f3nio Horta (coords.), <em>Pensar a Estrat\u00e9gia. Do pol\u00edtico-militar ao Empresarial<\/em>, Lisboa: S\u00edlabo, pp. 215-230.<\/p>\n\n\n\n<p>Duarte, Ant\u00f3nio Paulo (2013), \u201cEstrat\u00e9gia: origem e fundamento\u201d, <em>Na\u00e7\u00e3o e Defesa<\/em>, No. 136, pp. 34-65.<\/p>\n\n\n\n<p>Duyvesteyn, Isabel &amp; Worral, James (2017), \u201cGlobal Strategic Studies: a manifesto\u201d, <em>Journal of Strategic Studies<\/em>, Vol. 40, No. 3, pp. 347-357.<\/p>\n\n\n\n<p>Fernandes, Ant\u00f3nio Horta (2004), \u201cO Pensamento Estrat\u00e9gico Portugu\u00eas\u201d, em Themudo Barata, Manuel e Severiano Teixeira, Nuno (coords.), <em>Nova Hist\u00f3ria Militar de Portugal<\/em>, Vol. 4, Lisboa: C\u00edrculo de Leitores, pp. 511-581.<\/p>\n\n\n\n<p>Fernandes, Ant\u00f3nio Horta (2010), \u201cA Estrat\u00e9gia e as Rela\u00e7\u00f5es Internacionais\u201d, <em>Na\u00e7\u00e3o e Defesa<\/em>, No. 36, pp. 87-104.<\/p>\n\n\n\n<p>Fernandes, Ant\u00f3nio Horta (2011), <em>Acolher ou Vencer? A guerra e a estrat\u00e9gia na actualidade<\/em>, Lisboa: Esfera do Caos.<\/p>\n\n\n\n<p>Fernandes, Ant\u00f3nio Horta (2015), \u201cO Conceito de Seguran\u00e7a. Um obst\u00e1culo \u00e0 paz\u201d, <em>Rela\u00e7\u00f5es Internacionais<\/em>, No. 48, Dezembro 2015, pp. 139-164.<\/p>\n\n\n\n<p>Fernandes, Ant\u00f3nio Horta (2017), <em>Livro dos Contrastes. Guerra e pol\u00edtica (<\/em>Homo strategicus <em>III)<\/em>, Porto: Fronteira do Caos.<\/p>\n\n\n\n<p>Freedman, Lawrence (2016), <em>Estrategia. Una historia <\/em>[trad. espanhola], Madrid: Esfera de los Libros.<\/p>\n\n\n\n<p>Gray, Colin (2010), <em>The Strategy Bridge: theory for practice, <\/em>Oxford: Oxford University Press.<\/p>\n\n\n\n<p>Hal\u00edk, Tom\u00e1\u0161 (2016), <em>Quero que Tu Sejas! Podemos acreditar no Deus do amor?<\/em> [trad. portuguesa], Prior Velho: Paulinas.<\/p>\n\n\n\n<p>Hart, Basil Liddell (1991), <em>Strategy<\/em>, New York: Penguin.<\/p>\n\n\n\n<p>Henrotin, Joseph; Taillat, Steph\u00e1ne et Schmitt, Olivier (Dir.) (2015), <em>Guerre et Strat\u00e9gie. Approches, concepts<\/em>, Paris: PUF.<\/p>\n\n\n\n<p>Heuser, Beatrice (2013), <em>Penser la Strat\u00e9gie de l\u2019Antiquit\u00e9 \u00e0 nos Jours <\/em>[trad. francesa], Paris: Picard.<\/p>\n\n\n\n<p>Kane, Thomas &amp; Lonsdale, David, (2012), <em>Understanding Contemporary Strategy<\/em>, London: Routledge.<\/p>\n\n\n\n<p>Krause, Keith &amp; Williams, Michael (1997), \u201cFrom Strategy to Security: foundations of critical security studies\u201d, in Krause, Keith &amp; Williams, Michael (coords.), <em>Critical Security Studies. Concepts and cases<\/em>, London: UCL Press, pp. 33-59.<\/p>\n\n\n\n<p>Poirier, Lucien (1987), <em>Strat\u00e9gie Th\u00e9orique II<\/em>, Paris: Economica.<\/p>\n\n\n\n<p>Wasinski, Christophe (2015), \u201cLa Notion de Culture Strat\u00e9gique dans les \u00c9tudes Strat\u00e9giques\u201d, dans Henrotin, Joseph; Taillat, Steph\u00e1ne et Schmitt, Olivier (Dir.) (2015), <em>Guerre et Strat\u00e9gie. Approches, concepts<\/em>, Paris: PUF, pp. 131-147.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\">[1]<\/a> Para uma vis\u00e3o mais circunstanciada, em termos conceptuais, das imbrica\u00e7\u00f5es entre os estudos estrat\u00e9gicos e as Rela\u00e7\u00f5es Internacionais, veja-se (Fernandes, 2010: 151-172).<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref2\">[2]<\/a> Sempre podemos adiantar que a ideia de <em>culturas estrat\u00e9gicas<\/em> \u00e9 boa, embora, em rigor, devesse ser um tru\u00edsmo, n\u00e3o fosse a base behaviorista que se teve de ultrapassar. Para uma s\u00edntese qualificada da no\u00e7\u00e3o de cultura estrat\u00e9gia, veja-se (Wasinski, 2015).<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref3\">[3]<\/a> Para uma valoriza\u00e7\u00e3o cr\u00edtica do pensamento estrat\u00e9gico portugu\u00eas sobre a guerra subversiva, bem como das figuras de Botelho de Sousa e de Pereira da Concei\u00e7\u00e3o, e da discuss\u00e3o de alto n\u00edvel que este teve com Pires Monteiro acerca da extens\u00e3o do horizonte estrat\u00e9gico, <em>vide <\/em>(Fernandes, 2004: 534-574).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref4\">[4]<\/a> A racionalidade social estrat\u00e9gica \u00e9 escorada numa unidade fundada num reconhecimento ideol\u00f3gico de base, o qual n\u00e3o garante mais do que um equil\u00edbrio inst\u00e1vel, por for\u00e7a da dial\u00e9ctica de converg\u00eancia\/diverg\u00eancia de interesses dos diferentes membros dessa socialidade. Quanto mais recuarmos no tempo, mais unit\u00e1ria se apresenta uma dada racionalidade social estrat\u00e9gica. Pelo contr\u00e1rio, quanto mais nos aproximamos do nosso tempo mais essa unidade \u00e9 minimal e muito aberta. Para um maior desenvolvimento deste conceito, <em>vide <\/em>(Fernandes, 2017: 409-410).<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref5\">[5]<\/a> \u00c9 incontorn\u00e1vel n\u00e3o confundir guerra total com estrat\u00e9gia total, o nome primeiro que foi dado \u00e0 estrat\u00e9gia integral, mas que veio a ser substitu\u00eddo n\u00e3o apenas por parecer demasiado est\u00e1tico e estanque em rela\u00e7\u00e3o ao dinamismo contido no campo sem\u00e2ntico do voc\u00e1bulo <em>integral<\/em>, nas l\u00ednguas latinas, mas porque estava preso, e n\u00e3o apenas por vagas recorda\u00e7\u00f5es, \u00e0 \u00e9poca da guerra total. N\u00e3o por acaso Beaufre, na sua primeira grande obra, datada de 1963, liga ambiguamente estrat\u00e9gia total e guerra total. \u00c9 bem verdade que com o conceito de guerra total Beaufre quer significar em primeiro lugar ter a guerra fria levado a guerra a outras dimens\u00f5es que n\u00e3o a militar, muito por for\u00e7a dos impasses militares a que a revolu\u00e7\u00e3o nuclear deu lugar, e \u00e0 consequente necessidade de dissuadir a guerra quente entre as principais pot\u00eancias nucleares. N\u00e3o obstante, a express\u00e3o em causa ainda est\u00e1 condicionada pelas pautas da era da guerra total, do emprego simult\u00e2neo e intensivo de todas as formas de coac\u00e7\u00e3o, pois o pr\u00f3prio estrategista franc\u00eas precisa que a guerra fria apresenta, no essencial, as mesmas caracter\u00edsticas (Beaufre, 2004: 29).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref6\">[6]<\/a> Acerca da Estrat\u00e9gia e da guerra em Cabral Couto, veja-se (Couto, 1988;e ainda Couto, 2004: 215-230).<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref7\">[7]<\/a> O original da obra, tal como hoje aparece editada e intitulada, data de 1954. \u00c9 a\u00ed que o estrategista ingl\u00eas rev\u00ea e acrescenta uma primeira vers\u00e3o da obra, datada de 1929, ent\u00e3o intitulada, <em>The Decisive Wars of History<\/em>, na qual a estrat\u00e9gia \u00e9 apresentada como estrat\u00e9gia militar. Em 1954, o seu pensamento evolui, em particular, com o advento do nuclear, adicionando uma quarta parte \u00e0 obra, na qual passa a considerar al\u00e9m da estrat\u00e9gia militar, agora denominada <em>estrat\u00e9gia pura<\/em>, uma <em>grande estrat\u00e9gia<\/em> enquanto pol\u00edtica de defesa em acto. \u00c9 igualmente por essa altura que Liddell Hart come\u00e7a a interpretar o estilo estrat\u00e9gico indirecto como aquele que se socorre predominantemente das restantes estrat\u00e9gias, que n\u00e3o a militar, ao n\u00edvel da grande estrat\u00e9gia, superando a assim a sua anterior concep\u00e7\u00e3o, segundo a qual a estrat\u00e9gia indirecta n\u00e3o era mais do que estrat\u00e9gia militar operacional de aproxima\u00e7\u00e3o indirecta. De salientar ainda, que numa nova edi\u00e7\u00e3o, em 1967, Liddell Hart acrescenta \u00e0 obra um cap\u00edtulo sobre guerra de guerrilha.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>ANT\u00d3NIO HORTA FERNANDES Faculdade de Ci\u00eancias Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa\/Investigador do Instituto Portugu\u00eas de Rela\u00e7\u00f5es Internacionais (IPRI), Portugal T\u00edtulo: \u00bfQu\u00e9 es la estrategia? Una presentaci\u00f3n cr\u00edtica a partir de la escuela estrat\u00e9gica portuguesa Title: What is Strategy? A Critical Presentation from Portuguese Strategic School Resumo: Os estudos estrat\u00e9gicos, ou simplesmente a&hellip;&nbsp;<a href=\"https:\/\/seguridadinternacional.es\/resi\/html\/o-que-e-a-estrategia-uma-apresentacao-critica-a-partir-da-escola-estrategica-portuguesa\/\" class=\"\" rel=\"bookmark\">Leer m\u00e1s &raquo;<span class=\"screen-reader-text\">O que \u00e9 a estrat\u00e9gia? 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